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Estratégia Brics: até onde funciona o reposicionamento do Brasil diante da tensão com os EUA

Com a crescente tensão nas relações comerciais com os Estados Unidos, o Brasil tem buscado ampliar seus vínculos dentro do Brics, bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e mais seis países. Os números recentes da balança comercial indicam movimentos relevantes, especialmente com Índia e Emirados Árabes, e especialistas avaliam as oportunidades e riscos desse reposicionamento.

A China mantém a liderança como principal destino das exportações brasileiras, mesmo registrando uma pequena retração em 2024, quando foram comercializados US$ 94,4 bilhões (queda de 9,5% frente a 2023), segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). No primeiro semestre de 2025, as vendas ficaram em US$ 57,6 bilhões, queda de 6,7% em relação ao mesmo período de 2024.

As relações comerciais com os Emirados Árabes tiveram crescimento expressivo em 2024: US$ 4,5 bilhões (+43,7% na comparação com 2023). Porém, no primeiro semestre de 2025, o montante comercializado, US$ 1,9 bilhão, foi 34,4% inferior na comparação com igual período em 2024.

As exportações para a Índia também cresceram no ano passado. Totalizaram US$ 5,3 bilhões, alta de 12,5% em relação a 2023. No primeiro semestre de 2025, o aumento foi ainda mais expressivo: US$ 3,2 bilhões, 13,2% a mais do que em igual período do ano anterior.

No caso da África do Sul, em 2024 o Brasil exportou US$ 1,4 bilhão, 16% a menos do que em 2023. No primeiro semestre deste ano foram comercializados US$ 730,8 milhões, 12,9% a menos na comparação com igual período em 2024. Já em julho de 2025, o valor cresceu: R$ 167,3 milhões (33% a mais do que em igual período no ano passado).

Perfil dos mercados

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, explica o desempenho da balança comercial com estes países. Lima avalia que, no caso da Índia, o movimento é estrutural, já que o país amplia a demanda por petróleo, óleos vegetais e produtos agroindustriais, consolidando-se como um mercado crescente.

Nos casos de Emirados Árabes e África do Sul, o desempenho recente sugere ajustes conjunturais, após picos de compras em 2024. A queda na China também tem forte componente conjuntural, ligada à oscilação de preços de soja e minério, além da desaceleração de sua economia. Ainda assim, a China continua sendo estruturalmente o principal parceiro do Brasil no bloco, e dificilmente isso mudará.

De acordo com Andréia Adami, pesquisadora do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da USP (Universidade de São Paulo), outro país que promete ampliar as relações comerciais com o Brasil, não pela tensão com os EUA, mas sim pela guerra na Ucrânia, é a Rússia.

“O país é concorrente do Brasil na produção de carne e grãos, porém, por causa da guerra, ele está concentrando a sua produção em armas. Com isso, vem buscando suprir a demanda interna com produtos brasileiros”, ressalta Andréia.

Agro e energia: motores da relação comercial

A pauta do agronegócio segue central no relacionamento com os Brics. A China é a principal compradora de soja em grão, minério de ferro, petróleo e carne bovina brasileiros, diz Andreia, que acrescenta: “já faz alguns anos que 50% da carne bovina brasileira vai para a China”, o que mostra a relevância estrutural dessa parceria.

Além disso, a Índia se destaca pela forte demanda por óleo de soja, enquanto os Emirados Árabes têm buscado mais alimentos processados. A África do Sul, embora menos desenvolvida, é vista como mercado com potencial de crescimento, especialmente para o setor sucroenergético, ressalta Andréia.

Lima pontua que, além do agro, também se beneficiam os setores de petróleo e derivados, celulose, papel e o setor aeronáutico. Produtos manufaturados, como maquinário e químicos, têm registrado ganhos pontuais.

Força do Brics não substitui mercado dos EUA

Apesar do fortalecimento da agenda Brics, a diversificação não significa ruptura com os EUA. Para Lima, trata-se de uma estratégia de “multi alinhamento”: preservar os fluxos tradicionais com norte-americanos e União Europeia, ao mesmo tempo em que se aprofunda a relação com o bloco.

Na visão de Andréia, não se trata de um grupo criado para se opor aos EUA, mas de uma parceria que se consolidou de forma natural desde os anos 2000, conforme as relações comerciais se intensificaram.

Ainda assim, o analista da Ouro Preto alerta que dificilmente o Brasil deixará de depender do mercado norte-americano, especialmente em áreas como manufaturados, tecnologia e produtos de maior valor agregado. “O Brics funciona como amortecedor, mas não substitui integralmente o peso americano”, afirma.

Exportação de alimentos, energia e fertilizantes

Entre as oportunidades, Lima destaca a possibilidade de ampliar exportações de alimentos, energia e fertilizantes, além de nichos como alimentos processados no Golfo, químicos e manufaturados na Índia, carnes e celulose na China. Ele ressalta ainda o papel do Novo Banco de Desenvolvimento, que já aprovou financiamentos relevantes para projetos de energia renovável, saneamento e infraestrutura no Brasil.

Mas há riscos. O economista aponta que o Brasil pode enfrentar maior dependência de commodities, barreiras regulatórias nos países parceiros e desgaste diplomático com EUA e União Europeia. Além disso, gargalos logísticos e custos elevados de transporte marítimo ainda limitam a inserção em alguns mercados, sobretudo no caso de perecíveis, como pescado.

Acordos comerciais e regulatórios

Para equilibrar a aproximação com o Brics sem prejudicar as relações com EUA e União Europeia, Lima defende o pragmatismo: seguir negociando acordos de facilitação comercial e regulatórios com mercados tradicionais, enquanto expande as parcerias no Sul Global.

“É possível crescer em integração com o Brics sem abrir mão dos fluxos tradicionais. O desafio é não passar a imagem de alinhamento exclusivo”, conclui.