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UnionPay chega ao Brasil e promete oportunidades para pequenos comerciantes

A bandeira chinesa UnionPay, maior do mundo em número de cartões emitidos, consolida sua chegada formal ao Brasil em 2025 e promete mexer com o mercado de meios de pagamento.

Em números globais, a base da UnionPay supera 9 bilhões de cartões emitidos. Embora já houvesse aceitação parcial no país desde 2021, graças a parcerias como a firmada com a Stone e a rede de autoatendimento Saque e Pague, a operação agora ganha escala com o apoio da fintech LeftBank, responsável pela integração tecnológica e pela interoperabilidade com o sistema financeiro nacional.

A LeftBank ficará responsável pela emissão local e pela integração com bancos, adquirentes e Pix, enquanto a bandeira chinesa proverá a rede internacional e a tecnologia de aceitação.

A previsão é que a função crédito esteja disponível até o fim de 2025, após concluídas etapas regulatórias e ajustes técnicos. Para o micro, pequeno e médio comércio, a principal novidade é a possibilidade de atender a um público que antes encontrava barreiras para pagar: turistas e clientes estrangeiros, especialmente da Ásia, mercado em que a UnionPay é dominante.

Comércio

Ana Paula Martins, proprietária da cafeteria The Coffee and Tea, na região da Avenida Paulista, ponto tradicional de estrangeiros, gosta da ideia. “Recebo muitos turistas chineses e coreanos que acabam tendo dificuldades para pagar um cafezinho que seja porque estão com notas altas trocadas no câmbio ou não possuem outros cartões de crédito. Já vi muitos perguntando se aceitamos cartão UnionPay, outros chegam com o Wise.”

O Wise é uma fintech focada em transferências internacionais e contas multimoeda que permite enviar, receber e gastar dinheiro em várias moedas com taxas de câmbio próximas ao valor real do mercado. Com o cartão Wise é possível fazer pagamentos e saques no exterior, além de vincular a conta a carteiras digitais, como Apple Pay, Google Pay e AliPay.

Ana Paula acredita que a UnionPay vai ser um grande ganho não só para turistas, mas para o consumidor brasileiro, que poderá aproveitar taxas melhores ou promoções.

O ingresso de uma bandeira global tende a aumentar a competição entre adquirentes tradicionais, como Cielo, PagSeguro, Rede e a própria Stone, forçando-os a rever pacotes comerciais e taxas de desconto. É o que pensa Lair Gutierrez, consultor especializado em pagamentos financeiros.

Segundo ele, para os lojistas, a operação prática será simples. “Se o adquirente já tiver integrado a UnionPay, bastará uma atualização na roteirização de pagamentos para que a bandeira apareça entre as opções aceitas na maquininha”, diz.

Em e-commerces, marketplaces ou estabelecimentos que usam gateways próprios, haverá necessidade de habilitar manualmente a bandeira, ajustar conciliações e testar processos como captura e estorno, além de alinhar condições comerciais e prazos de liquidação, que em transações internacionais podem seguir regras distintas das aplicadas à Visa ou à Mastercard.

“A UnionPay investe fortemente em integração com carteiras digitais e pagamentos via QR Code, aproveitando o ecossistema já popularizado por plataformas asiáticas, como Alipay e WeChat Pay. Em alguns países, essas integrações permitem que o cliente pague apenas apontando a câmera do celular para um código no balcão, e a expectativa é que no Brasil recursos semelhantes possam ser adaptados para trabalhar junto ao Pix”, diz Gutierrez.

Outro ponto, segundo o especialista, é a posição estratégica da bandeira no cenário geopolítico: por não ser americana, é vista como alternativa em mercados onde Visa e Mastercard enfrentam restrições, o que pode influenciar negociações com bancos e fintechs.

Apesar das promessas, nem tudo estará disponível de imediato. Benefícios tradicionais no mercado brasileiro, como parcelamento sem juros, programas de pontos e recompensas, dependerão de acordos locais com emissores, e será preciso acompanhar o lançamento de cartões co-branded ou produtos específicos para verificar quais vantagens efetivamente chegarão ao portador brasileiro.

Diversificação

Para Gecilda Esteves, professora de administração e ciências contábeis do Ibmec-RJ, a chegada da UnionPay representa um movimento importante de diversificação.

“O setor é dominado por bandeiras americanas como Mastercard, Visa e American Express, além da Hipercard e da Elo. A entrada da gigante chinesa amplia a concorrência e pode gerar benefícios tanto para consumidores quanto para empresários”, avalia.

Entre os principais diferenciais que podem atrair os comerciantes, especialmente os pequenos e médios, está a possibilidade de a UnionPay adotar estratégias agressivas de entrada, como oferecer taxas mais baixas no início da operação, explorar soluções inovadoras de pagamento ligadas ao comércio internacional, facilitar a inclusão financeira e abrir portas para o mercado chinês.

“Ela pode melhorar bastante a vida do pequeno e do médio empresário, mas tudo vai depender dos benefícios concretos que trouxer para competir com quem já está estabelecido”, diz a professora do Ibmec-RJ.

Ainda de acordo com Gecilda, a pressão sobre concorrentes e eventual redução de taxas dependerá da ampliação da presença da bandeira no mercado. À medida que a UnionPay se tornar mais presente, a tendência é que os clientes passem a demandar tarifas mais competitivas, e o potencial de atração de turistas estrangeiros será ampliado.

Transações

Ricardo Sampaio, dono de uma importadora de produtos eletrônicos em São Paulo, viaja à China pelo menos três vezes por ano para negociar contratos com fornecedores locais.

Desde que inaugurou um hub comercial na cidade chinesa de Shenzhen, em 2022, ele abriu conta em banco do país e se habituou a usar o cartão UnionPay para todas as transações locais, aproveitando a aceitação quase universal da bandeira na Ásia e a integração com carteiras digitais.

Para ele, a chegada da UnionPay ao Brasil representa uma oportunidade prática e estratégica. “Hoje, quando faço compras diretamente com nossos fornecedores chineses, não preciso me preocupar com taxas de câmbio elevadas ou recusa de cartões internacionais”, avalia.

A chegada da UnionPay, portanto, não é apenas mais um logotipo na porta do estabelecimento. Ela representa a entrada de um competidor de peso em um mercado dominado por poucas bandeiras e controlado por grandes adquirentes, criando condições para concorrência que pode reduzir custos e ampliar ferramentas à disposição do comércio.

Se a promessa se confirmará ou não, dependerá de como o ecossistema — e o próprio lojista — vai se movimentar para transformar oportunidade em resultado.