Copa do Mundo: vale a pena abrir um negócio temático?
Evento concentra consumo e emoção, mas só dá lucro para quem planeja, controla custos e respeita o tempo do jogo Torcedor que é torcedor gosta de se instrumentar para apoiar a seleção brasileira durante a Copa do Mundo. Vale vuvuzela, bandeira, chapéu, roupa, gravata, óculos e qualquer produto para entrar no clima. E como fica o lado empreendedor nessa história? Transformar essa emoção coletiva em faturamento real, e não apenas movimento ou visibilidade, exige mais do que bandeirinhas, cardápio verde-amarelo ou promoções improvisadas. A diferença entre lucro e prejuízo está no planejamento, na clareza do modelo de negócio e no controle do tempo, fator crítico em eventos sazonais, segundo especialistas ouvidos pela reportagem. A Copa do Mundo não gera oportunidades automaticamente, mas concentra consumo em um curto período, o que pode resultar tanto em ganhos rápidos quanto em prejuízos acelerados, dependendo da estrutura do negócio, segundo Leonardo Leão, CEO e cofundador da Brave Educação. “A diferença entre quem ganha dinheiro e quem sai frustrado quase nunca está na ideia, mas na capacidade de planejar, executar e encerrar a operação corretamente”, diz Leão. Na mesma linha, Vera Ruthofer, consultora de negócios do Sebrae-SP, afirma que o mercado não está saturado de oportunidades, e sim de propostas genéricas. Segundo ela, a Copa favorece quem entende o comportamento do cliente e entrega conveniência, experiência ou uma solução clara. Não vale apenas apostar em uma decoração temática. Marcus Rizzo, diretor da Rizzo Franchise, reforça essa visão ao afirmar que eventos esportivos como a Copa mexem fortemente com o consumo e que não há saturação prevista; ao contrário, há potencial de crescimento, desde que o empreendedor entenda o impacto do tempo limitado do evento. “O tempo, nesse tipo de negócio, que deve ser de apenas três meses, é o principal fator para determinar o investimento para montar e instalar o negócio, pois o valor não poderá ser diluído ao longo de anos de operação. Além disso, as despesas com locação, taxas, utilidades (luz, água e internet) e pessoal (salários, indenizações e extras) também influenciam”, sinaliza Rizzo. Ele continua: “depois de calcular com precisão ‘o tempo’, você poderá projetar as compras e as vendas de acordo com o público passante e/ou frequentador do local onde o negócio será provisoriamente instalado.” Como transformar emoção em faturamento Um dos erros mais comuns, segundo os especialistas, é confundir fluxo de pessoas com resultado financeiro. O faturamento aparece quando a emoção vira estratégia comercial. Do ponto de vista do Sebrae, isso passa por ofertas objetivas como combos, kits, pacotes fechados, vendas antecipadas e ações pensadas para elevar o ticket médio. “Ter muito movimento sem estratégia gera caixa momentâneo, mas não garante lucro nem sustentabilidade”, sinaliza Vera. Leão complementa que negócios que faturam de verdade na Copa costumam ter três características: ticket médio elevado; recebimento antecipado, que reduz o risco de caixa e oferta simples; controle rigoroso de custos e desperdícios. Segundo ele, a Copa favorece quem vende experiências organizadas, e não quem depende de fluxo espontâneo. Já Rafael Souza, consultor da Empreender Dinheiro, destaca que o evento movimenta diversos setores, especialmente turismo, alimentação e varejo, mas ressalta que ideias criativas “fora da caixa” podem destravar mais valor. Para ele, o ponto de partida deve ser sempre as competências do próprio empreendedor, transformadas em negócio com planejamento. Quando o negócio temático vira uma furada A sazonalidade é o principal ponto de atenção. Ignorá-la pode transformar rapidamente uma boa ideia em prejuízo. Os sinais de alerta, segundo Vera, incluem custos fixos elevados, estoques grandes, contratações sem prazo definido e ausência de cálculo do ponto de equilíbrio. “Investimentos de curto prazo precisam gerar retorno no curto prazo.” Leão aponta riscos como investimento alto em estrutura fixa, estoque personalizado sem plano de liquidação, dependência do desempenho da seleção e falta de projeções financeiras para cenários ruins, como eliminação precoce ou jogos em horários desfavoráveis. Quando o lucro depende de tudo sair perfeitamente, o risco está mal dimensionado. Para Rizzo, o tempo é o fator mais crítico. Ele estima que a janela real da Copa seja de cerca de três meses, o que dificulta diluir investimentos e despesas como aluguel, taxas, utilidades e pessoal. Sem considerar esse limite temporal, o negócio tende a nascer desequilibrado. Como calcular o investimento em um negócio da Copa do Mundo? Souza acrescenta que é fundamental colocar todos os custos na ponta do lápis, desde aquisições e impostos até cenários conservadores e pessimistas, e, principalmente, retirar o viés emocional da decisão. Segundo ele, interromper uma ideia inviável ainda no papel é um sinal de inteligência financeira. Em investimentos, ele explica, existe um conceito de Taxa Mínima de Atratividade (TMA), que varia de pessoa para pessoa. “Dado que temos uma taxa de juros de cerca de 15% ao ano, qualquer investimento de risco deveria remunerar um excedente, principalmente quando envolve negócios na economia real em que, além de investirmos dinheiro, temos que investir nosso tempo também. Logo, ao simular cenários, valide se o capital empregado vai ter um retorno maior do que uma boa TMA para justificar o tempo e o dinheiro empregados.” Para quem esse tipo de negócio faz mais sentido Há consenso entre os especialistas de que negócios temáticos de Copa do Mundo funcionam melhor para quem já empreende. Vera explica que empreendedores em atividade conseguem aproveitar estrutura, fornecedores e base de clientes, enquanto iniciantes devem optar por modelos enxutos, digitais ou temporários, com baixo investimento inicial. Leão reforça que empresas existentes conseguem diluir custos fixos, testar ofertas com menos risco e errar menos em um evento curto, em que não há tempo para aprender com tentativa e erro. Rizzo é ainda mais direto: negócios sazonais exigem profissionais experientes e o risco é triplicado para aventureiros. Souza, por outro lado, avalia que pode funcionar tanto para quem já empreende quanto para quem quer começar, desde que o empreendedor tenha disposição para dedicar energia intensa no início e não delegue demais antes de o negócio estar estruturado. Quais modelos tendem a funcionar melhor Os modelos mais citados pelos especialistas têm características em comum: - Baixo custo fixo; - Flexibilidade; - Prazo claro de início e fim; e - Controle rigoroso da operação. Entre os formatos com melhor desempenho estão: - Alimentação; - Delivery com cardápio reduzido; - Produtos personalizados sob demanda; - Eventos pagos; - Experiências premium; - Ativações corporativas; e - Serviços ligados ao consumo pontual da Copa. Leonardo Leão alerta que estruturas grandes montadas exclusivamente para o evento exigem volume constante e margem alta, algo difícil de sustentar. Já Rizzo destaca que, mais do que o produto, é a operação profissional (entrega, atendimento e oferta) que determina o sucesso, pois não há tempo para corrigir erros. Souza reforça que não existe resposta pronta: o melhor modelo depende do contexto, da aptidão do empreendedor e da matemática do negócio. Sem planejamento financeiro, a iniciativa deixa de ser investimento e vira aposta. O pós-Copa começa antes do apito inicial Planejar o fim é tão importante quanto planejar o começo. Segundo Vera, estratégias como reaproveitar estrutura, manter relacionamento com clientes, capturar contatos e adaptar o mix de produtos ajudam a garantir saúde financeira após o evento. Leão afirma que todo negócio sazonal precisa nascer com uma estratégia clara de encerramento: converter clientes, reaproveitar ativos ou simplesmente encerrar a operação com lucro e zero passivos. Souza amplia essa visão ao dizer que o objetivo do empreendedor não deve ser renda temporária, mas perenidade. Para isso, é essencial pensar desde o início em como o negócio pode continuar após a Copa, seja participando de outros eventos, seja fortalecendo marca e presença digital para futuras vendas. Rizzo conclui que cuidar da operação e do atendimento é fundamental, pois produtos serão rapidamente copiados. Ele também alerta para práticas que geram rejeição do consumidor, como preços abusivos em locais confinados (shoppings, aeroportos, galerias), erros que deixam marcas negativas difíceis de apagar. Dicas práticas dos especialistas para não errar na Copa - Planeje o negócio para se pagar durante o evento, não depois; - Priorize custos variáveis e evite estrutura fixa pesada; - Trabalhe com ticket médio alto e ofertas organizadas; - Faça projeções financeiras para cenários ruins, não só otimistas; - Comece pelo que você já tem expertise ou aptidão; - Formalize o negócio e entenda os impostos envolvidos para evitar problemas futuros; - Cuide da operação e do atendimento: produto sozinho não salva o negócio; e - Defina desde o início como o negócio vai terminar ou se transformar após a Copa do Mundo.Copa do Mundo: vale a pena abrir um negócio temático?
16/Jan/2026

